terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

O Conto dos Sábios e da Manga

O conto dos sábios e da manga é uma história tradicional que ilustra diferentes formas de conhecimento e experiência. Há várias versões, mas a essência é mais ou menos assim:


O Conto dos Sábios e da Manga


Certa vez, três sábios viajavam juntos quando encontraram uma árvore carregada de mangas maduras. Eles decidiram estudá-la para entender sua natureza.


O primeiro sábio pegou um caderno e começou a descrever a árvore: seu tamanho, a forma das folhas, a textura do tronco e o número de frutos que conseguia contar. Ele acreditava que, catalogando todas as características externas, poderia conhecer a manga completamente.


O segundo sábio pegou uma das mangas e a cortou, analisando sua composição. Ele estudou a casca, a polpa e a semente, tentando entender sua estrutura e propriedades. Ele acreditava que a verdadeira compreensão da manga estava em sua análise detalhada.


O terceiro sábio, sem dizer nada, simplesmente pegou uma manga madura, descascou-a e começou a comê-la. Ele sentiu o gosto doce, a textura macia e a suculência da fruta. Para ele, conhecer a manga significava experimentá-la diretamente.


Após um tempo, os três sábios compartilharam suas conclusões. O primeiro trouxe descrições detalhadas, o segundo explicou a estrutura interna da fruta, mas foi o terceiro quem sorriu e disse:

— Agora eu sei o que é uma manga.


Interpretação Fenomenológica


Esse conto reflete a diferença entre descrever um fenômeno de maneira externa, analisá-lo de forma fragmentada e vivenciá-lo diretamente. A postura fenomenológica se aproxima do terceiro sábio, pois enfatiza a experiência direta do fenômeno, sem reduzi-lo a conceitos prévios ou a uma separação rígida entre sujeito e objeto.


A fenomenologia busca descrever a experiência tal como ela se dá, sem reduzi-la a explicações puramente intelectuais ou científicas. Como no conto, não basta descrever a manga ou analisá-la — é preciso vivenciá-la.


A diferença crucial está no ponto de partida e no modo de descrever.


O primeiro sábio descreve a manga de fora, como um objeto separado dele. Ele cataloga suas características físicas sem se envolver com a experiência de ser afetado pela manga. Sua descrição é externa, analítica e objetiva no sentido tradicional, pois ele se coloca como um observador distanciado.


Já na fenomenologia, descrever significa dar voz à experiência vivida. O fenômeno não é algo externo a ser analisado à distância, mas algo que se apresenta à consciência e é vivido em primeira pessoa. A descrição fenomenológica parte da experiência direta e envolve a forma como algo aparece para quem o vivencia.


Voltando ao conto, o terceiro sábio, ao comer a manga, não apenas a experimenta, mas poderia descrevê-la a partir da sua vivência: a textura na boca, o gosto doce que se espalha, a suculência. Essa descrição não é uma análise objetiva nem uma separação entre sujeito e objeto, mas a expressão do fenômeno tal como ele se manifesta à sua consciência.


Ou seja, a fenomenologia descreve suspendendo interpretações pré-concebidas.  Ela não tenta encaixar a experiência em categorias prévias ou explicações causais. Simplesmente permite que a experiência se apresente em sua plenitude, sem ser filtrada por teorias ou conceitos prévios.


sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Sou Existencialista: Psicoterapeuta - Jennifer Giusti - CRP: 06/114727 ...

Sou Existencialista: Psicoterapeuta - Jennifer Giusti - CRP: 06/114727 ...:   




Meu nome é Jennifer Giusti (Nina), sou psicóloga clínica, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, professora e supervisora clínica na UNIP, com foco na abordagem fenomenológico-existencial. Atuo a há mais de 10 anos como psicoterapeuta de crianças e adolescentes, e na orientação aos pais. Também atuo no atendimento de adultos e casais.
Além de ser psicóloga, sou professora de Yoga, alternando minha rotina entre esses dois trabalhos. Apesar de serem práticas muito diferentes, considero que existe uma relação importante entre esses dois tipos de cuidado.

Como psicoterapeuta me baseio na abordagem fenomenológico-existencial para compreender meus pacientes e como professora de Yoga me fundamento nessa filosofia oriental milenar. Abordagens com origens e bases epistemológicas completamente diferentes, mas que possuem algo muito importante em comum: são práticas de autocuidado que buscam o alívio do sofrimento humano.
Como psicóloga recebo diversos tipos de demandas e me deparo frequentemente com casos em que o Yoga pode ser benéfico, ou ao contrário, como professora de Yoga muitas vezes percebo que a psicoterapia pode ser pertinente para determinado aluno.

Observo também que essas práticas podem se complementar. Por exemplo, na compreensão da fenomenologia-existencial não existe separação entre mente e corpo, o Ser é uma integridade, indissociada, inclusive, do mundo ao seu redor. Por outro lado, a palavra Yoga vem do sânscrito e significa “união”, referindo-se a experiência de união consigo mesmo e com tudo o que existe, que acontece na prática, por meio da vivência.
Aqui o pensamento fenomenológico se aproxima da prática do Yoga e de uma certa forma o Ocidente dialoga com o Oriente.

Em minha pesquisa de mestrado também abordei esses temas na dissertação “A presença no Yoga: um estudo a partir da perspectiva fenomenológico-existencial”, onde me propus a compreender o estado de presença suscitado pela prática do Yoga a partir de uma leitura fenomenológico-existencial.

Deixo aqui algumas reflexões iniciais e espero, num próximo post, falar mais sobre o meu trabalho e essa relação entre fenomenologia e Yoga que acabou acontecendo, mas também de cada tema em particular.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Forjando a armadura (Rudolf Steiner)

(tradução Ute Crãmer)

Nego-me a me submeter ao medo
que me tira a alegria de minha liberdade,
que não me deixa arriscar nada,
que me torna pequeno e mesquinho,
que me amarra,
que não me deixa ser direto e franco,
que me persegue,
que ocupa negativamente minha imaginação,
que sempre pinta visões sombrias.
No entanto não quero levantar barricadas por medo
do medo. 
Eu quero viver, e não quero encerrar-me.
Não quero ser amigável por ter medo de ser sincero.
Quero pisar firme porque estou seguro e não para encobrir meu medo. 

E, quando me calo, quero
fazê-lo por amor
e não por temer as
conseqüências de minhas
palavras.
Não quero acreditar em algo
só pelo medo de
não acreditar. 
Não quero filosofar por medo
que algo possa
atingir-me de perto.
Não quero dobrar-me só
porque tenho medo
de não ser amável.
Não quero impor algo aos
outros pelo medo
de que possam impor algo a mim; 
por medo de errar, 
não quero tomar-me inativo. 
Não quero fugir de volta para
o velho, o inaceitável, 
por medo de não me sentir
seguro no novo.
Não quero fazer-me de
importante porque tenho medo
de que senão poderia ser ignorado.
Por convicção e amor, quero
fazer o que faço e
deixar de fazer o que deixo de fazer. 

Do medo quero arrancar o
domínio e dá-lo ao amor.
E quero crer no reino que
existe em mim.