quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O Disfarce Fascista


Por que o fascismo é fascinante?

Fascina.
Faz sina?
A farsa se fantasia de verdade.
O falso faz da fé
fanatismo.

Falácia fanática:
fala do falo?
Falo que fala,
falo que falha?

Que falta
o falo esconde
quando fala tão alto?

Esconde a falha com farda,
a falta com força,
o vazio fazendo pose de pátria.

Fala, fala, fala —
para não escutar
o que lhe falta.

A fantasia encobre.
Rouba da verdade a roupa.
Com linha emprestada,
borda no peito:
Cristo.
Pátria.
Família.

Mas o avesso sua.
A farda repuxa.
A linha ameaça arrebentar.

Depois da verdade,
o que vem?

A mentira que me veste.
A roupa serve.
A máscara cabe.
O espelho concorda.

Fetiche:
o interdito de pé,
o desejo pelos fundos.

O proibido, bem vestido,
sustenta o horror escondido.

O abismo precisa de esconderijo:
a aparência da verdade
lhe serve de disfarce.

A mulher eleita,
com o fio do voto,
borda o silêncio
na boca das outras.

A Verdade, mulher nua:
indecente.

A Mentira, vestida de virtude:
santa.

Mas a Verdade tem corpo.
A Mentira, só figurino.
 

O momento em que a Verdade se encontrou com a Mentira

Conta uma parábola que um dia a Mentira e a Verdade se encontraram:

A Mentira disse à Verdade:

– Bom dia, dona Verdade.

E a Verdade foi comprovar se realmente era um bom dia. Ela olhou para cima, vendo que não havia nuvens de chuva, que vários pássaros cantavam e que era realmente um bom dia, respondeu à Mentira:

– Bom dia, senhora Mentira.

– Está muito quente hoje, continuou a Mentira.

E a Verdade, vendo que a Mentira era sincera, relaxou-se.

A Mentira, então, convidou a Verdade a se banhar no rio. Ela tirou a roupa, pulou na água e disse:

– Realmente, a água está deliciosa.

E, uma vez que a Verdade, sem duvidar da Mentira, tirou suas roupas e caiu no rio, a Mentira saiu da água e vestiu-se com a roupa da Verdade. Esta por sua vez, recusou-se a vestir as roupas da Mentira e, não tendo de que se envergonhar, saiu desnuda, andando pela rua.

Aos olhos das outras pessoas, no entanto, foi mais fácil aceitar a Mentira vestida de Verdade, do que a Verdade nua e crua.

(Autor desconhecido)


quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Tu és teu próprio caminho


Seu caminho


Eu sei que há quem não acredite em você.

Há quem olhe para os caminhos que você escolheu
como se fossem erros anunciados.
Quem espere o seu tropeço,
não para lhe oferecer a mão,
mas para sorrir e dizer:
“Eu sabia.”

Há quem espere a sua queda
como se ela pudesse provar
que você nunca foi capaz,
que não tem valor,
que sonhou alto demais.

Porque há quem torça, sim,
para que você caia.

Nem todo olhar é cuidado.
Nem toda proximidade é abrigo.

Há pessoas que só suportam a sua existência
enquanto você cabe
no lugar pequeno
que reservaram para você.

Há também quem coloque outra pessoa
diante de você como medida:

“Veja onde ela chegou.
Veja o que falta em você.”

E, de tanto escutar,
talvez você comece a repetir
essa comparação em silêncio,
usando contra si
a régua que um dia lhe deram.

E, depois de ouvir tantas vezes
“Quem você pensa que é?”,
talvez você comece a se perguntar o mesmo.

Talvez recolha os próprios sonhos,
diminua a própria voz
e chame de excesso
aquilo que, em você,
era apenas desejo de viver.

Mas talvez a pergunta seja outra:

Quem você deixa de ser
toda vez que se diminui
para caber nas expectativas de alguém?

O olhar de quem diminui você
não tem o poder de dizer quem você é.

E, se um dia você cair,
a sua queda não lhes dará razão.

Uma queda não é uma sentença.
Um tropeço não transforma você
naquilo que disseram que seria.

E, quando faltar chão,
talvez uma mão inesperada
encontre a sua.

Porque nem todo amparo vem
de onde aprendemos a esperá-lo.

Às vezes, alguém nos encontra.
Às vezes, no meio do caminho,
somos nós que nos encontramos.

Você não precisa chegar
para provar o seu valor.

Nem transformar o caminho de outra pessoa
em medida para o seu.

Não recue diante da vida
que chama por você.

Os seus passos não pertencem
a quem torce para que eles falhem.

O caminho continua sendo seu.


sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Navegar a vida: entre o desejo de definição e a liberdade de fluir

 


Na tradição fenomenológico-existencial refletimos muitas vezes sobre a frase: “a existência precede a essência”. Mas talvez hoje, mais do que reconhecer a inexistência de uma essência fixa, possamos voltar o olhar para o desejo que nos move. Podemos perguntar: por que o ser humano busca tanto uma essência? De onde vem esse desejo por algo que o defina, o contenha, o segure?

A imagem que vemos aqui, múltiplos corpos entrelaçados, sobrepostos, em transição, expressa esse drama: o conflito entre o desejo de ser algo sólido e a vivência real de ser fluxo. Há um movimento interno, quase líquido, entre nascimento, tensão, dor, entrega. Nada está parado. Nada é uma coisa só. Ainda assim, buscamos uma ideia de “quem eu sou”, como se fosse possível conter o oceano em um pote.

Mas e se não for uma essência que nos liberta, e sim a habilidade de navegar? A abertura à mudança. A confiança na transformação. A fé, não no sentido dogmático, mas como gesto existencial: um confiar no porvir sem precisar controlá-lo.

Fluir com a vida é um trabalho. Um trabalho de escuta, de tolerância à incerteza, de presença no agora. E isso, talvez, seja mais terapêutico do que encontrar um “eu verdadeiro” escondido atrás das camadas. Talvez, nossa saúde esteja menos em descobrir “quem somos” e mais em nos permitir ser atravessados pelas experiências, e nos refazer, com leveza e coragem.

O ser humano busca uma essência, muitas vezes, por medo da instabilidade. Mas paradoxalmente, é a aceitação amorosa da instabilidade que mais nos fortalece.

A imagem mostra: somos processo. Somos corpo em movimento. Somos camadas que se desfazem e se redesenham. E talvez, só talvez, essa seja a única essência que vale a pena reconhecer, a do viver como presença em mutação.


terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

O Conto dos Sábios e da Manga

O conto dos sábios e da manga é uma história tradicional que ilustra diferentes formas de conhecimento e experiência. Há várias versões, mas a essência é mais ou menos assim:


O Conto dos Sábios e da Manga


Certa vez, três sábios viajavam juntos quando encontraram uma árvore carregada de mangas maduras. Eles decidiram estudá-la para entender sua natureza.


O primeiro sábio pegou um caderno e começou a descrever a árvore: seu tamanho, a forma das folhas, a textura do tronco e o número de frutos que conseguia contar. Ele acreditava que, catalogando todas as características externas, poderia conhecer a manga completamente.


O segundo sábio pegou uma das mangas e a cortou, analisando sua composição. Ele estudou a casca, a polpa e a semente, tentando entender sua estrutura e propriedades. Ele acreditava que a verdadeira compreensão da manga estava em sua análise detalhada.


O terceiro sábio, sem dizer nada, simplesmente pegou uma manga madura, descascou-a e começou a comê-la. Ele sentiu o gosto doce, a textura macia e a suculência da fruta. Para ele, conhecer a manga significava experimentá-la diretamente.


Após um tempo, os três sábios compartilharam suas conclusões. O primeiro trouxe descrições detalhadas, o segundo explicou a estrutura interna da fruta, mas foi o terceiro quem sorriu e disse:

— Agora eu sei o que é uma manga.


Interpretação Fenomenológica


Esse conto reflete a diferença entre descrever um fenômeno de maneira externa, analisá-lo de forma fragmentada e vivenciá-lo diretamente. A postura fenomenológica se aproxima do terceiro sábio, pois enfatiza a experiência direta do fenômeno, sem reduzi-lo a conceitos prévios ou a uma separação rígida entre sujeito e objeto.


A fenomenologia busca descrever a experiência tal como ela se dá, sem reduzi-la a explicações puramente intelectuais ou científicas. Como no conto, não basta descrever a manga ou analisá-la — é preciso vivenciá-la.


A diferença crucial está no ponto de partida e no modo de descrever.


O primeiro sábio descreve a manga de fora, como um objeto separado dele. Ele cataloga suas características físicas sem se envolver com a experiência de ser afetado pela manga. Sua descrição é externa, analítica e objetiva no sentido tradicional, pois ele se coloca como um observador distanciado.


Já na fenomenologia, descrever significa dar voz à experiência vivida. O fenômeno não é algo externo a ser analisado à distância, mas algo que se apresenta à consciência e é vivido em primeira pessoa. A descrição fenomenológica parte da experiência direta e envolve a forma como algo aparece para quem o vivencia.


Voltando ao conto, o terceiro sábio, ao comer a manga, não apenas a experimenta, mas poderia descrevê-la a partir da sua vivência: a textura na boca, o gosto doce que se espalha, a suculência. Essa descrição não é uma análise objetiva nem uma separação entre sujeito e objeto, mas a expressão do fenômeno tal como ele se manifesta à sua consciência.


Ou seja, a fenomenologia descreve suspendendo interpretações pré-concebidas.  Ela não tenta encaixar a experiência em categorias prévias ou explicações causais. Simplesmente permite que a experiência se apresente em sua plenitude, sem ser filtrada por teorias ou conceitos prévios.